Mais uma consequência de uma história de ônibus. E acredite, essa aqui é baseada em úma história real. Em pleno horário de aula na faculdade, minha amiga Cris me contou esse caso muito engraçado que aconteceu com um colega dela e achei tão hilário que resolvi passar para o papel. É claro que você encontrará o acontecido um pouquinho mais rebuscado e exagerado, mas é pra dar um tom mais envolvente à narrativa. Acrescentei algumas percepções e opiniões minhas, que são experiências por andar de "busão" todo dia! Divirtam -se…

O trabalho e toda sua rotina. Acordar cedo, pegar aquela lotação digna do nome que foi batizada, lotada, e ainda por cima um gigantesco engarrafamento. E vocês já repararam como os homens falam pouco de manhã? Na parte da manhã não são muito dados à conversa. No mais rosnam um “bom dia” meio entre dentes. Já mulher não. Mulher sofre da síndrome da “boquinha nervosa”, possuem uma necessidade incontrolável de se comunicarem. Em um ônibus, de manhã, você só escuta voz de mulher e sai do “busão” sabendo o que a Dona Maria, aquela que operou da vesícula, vai fazer pro almoço especial de domingo. Sem contar que sempre o celular de um infeliz começa a tocar… E acreditem, sempre será um toque extremamente insuportável como aquela “musiquinha” da Família Addams, por exemplo. Isso mesmo, e polifônico ainda por cima. E parece que o coitado se diverte com a situação, porque custa a atender a ligação.

Apenas cinco minutos de atraso que rendem um mês inteiro de perseguição do maldito do chefe. E aí vem aquele dia maçante, pilhas e mais pilhas de relatórios para ler e fazer que as mãos começam a criar vida própria. Eu juro que um dia ouvi meu dedo mindinho, aquele coitadinho que fica por baixo de todos, ali, se arrastando pelo papel, murmurar um palavrão bem sujinho.
A hora do almoço é uma verdadeira “hora do desgosto”. Se num dia a cozinheira não queima o arroz é porque queimou o feijão, e o bife vem com aquela cara de boi magrelo que morreu de sede e que foi preparado numa chapa suja à beça. Mas tudo bem. Vou reclamar pra quê? Odeio gente que reclama demais.
E ultimamente estou muito feliz, acho que estou apaixonado. Acho que encontrei a mulher da minha vida. Pego o ônibus todo dia com ela. Estamos flertando tem uns dois meses. Troca de olhares, aquela coisa sabe? A melhor hora do dia é a de ir embora de ônibus apertado. Enquanto a tarde vai passando no Quilombo e depois de engolir uma dezena de sapos, a lembrança da minha dama da lotação serve como copo de vinho francês. Aí já não reclamo mais. Vou reclamar pra quê? Odeio gente que reclama demais. Nessa hora qualquer sapo desce gostoso. Tudo vale a pena se no final eu ver minha pequena.
Já me peguei várias vezes tentando imaginar o nome do meu “docinho”. Até hoje não tive coragem de dar um oi, uma Boa Noite! Aliás, nunca ouvi sua voz. Será que é aquele tipo de voz forte e decidida, tipo Ivete Sangalo? Não! Não! Aí não, ela vai ser mais homem que eu. Deve ter aquela “vozinha” tipo Sandy. Isso não. Deus me Livre! Essas possuem a tendência de carregar o irmão nas costas, ou seja, um cunhado pra transferir das costas dela para a minha!
Mas que tem cara de inteligente isso tem. Como é linda minha princesa! Ainda faltam três horas para eu vê-la e aí vou tomar coragem e… Vou ficar olhando mais um pouquinho. Segunda feira eu falo com ela.
Nesse dia até que a tarde terminou tranqüila. Assim que deu meu horário, desliguei o computador, tranquei minhas gavetas e desci a escada tão rápido que nem percebi. Chego ao ponto de ônibus e começo a olhar em volta, como sempre. É o ponto de ônibus mais fétido do mundo. Uma mistura de mijo com bosta de rato e de gente, mais o suor de dezenas de pessoas que trabalharam um dia inteiro.
Logo minha ira é desviada pela visão da minha pequena. Afinal, tenho motivo pra reclamar? Claro que não. A noite está tão tranqüila e eu odeio gente que reclama demais.
E ela lá! A primeira da fila. O amor da minha vida. Aquilo era uma aparição do céu, um anjo encarnado e… MUDO! A lembrança de nunca havia escutado sua voz me volta como um tiro. Eu não conheço a voz da minha amada. Isso tem que mudar. Então decidi me aproximar. Cada passo que eu dava parecia pesar uma tonelada. Meu Deus, como covardia pesa! E não é que no ápice da minha coragem repentina, o ônibus chega, sem um minuto do atraso habitual, logo hoje, e atrapalha a minha aproximação! A cada passo que eu dava ensaiava uma palavra de amor, a cada passo que eu dava aumentava a vontade de ganhar um beijo ardente e então me imagino falando com ela, e quase me borro inteiro.
Pronto! Sento no ônibus e só enxergo a nuca da minha pequena. Ela está ali, a três cadeiras de distância de mim. A cabecinha cansadinha encostadinha na janelinha. Como eu queria ser aquela janelinha. A viagem foi seguindo como tantas outras. Minhas alucinações, um saculejo, delírios, outro saculejo, nuca, cabelo e silêncio. Eu acompanhando cada movimento de cabeça ou de mão e a cada mexida de cabelo era como se eu sentisse o cheiro de mil rosas. Não pude conter um sorriso nos lábios ao contemplá-la, imaginando o que ela estaria pensando. E eu me imaginando, num parque ao lado dela, o primeiro beijo, o pedido de namoro, o pedido de casamento, o sim na igreja, a gravidez, o nascimento…
Sou acordado do meu devaneio de forma brusca. De repente o ônibus dá aquela freada de descolar retina e levar o estômago pra sentar no colo. Olho desesperado para a direção da minha pequena extremamente preocupado. Daí pra frente tudo aconteceu numa espécie de câmera lenta. Da boquinha linda da minha esposa prometida sai o seguinte grito em resposta a freada do cavalo do motorista:
- UTERERÊ !!!

Desci no inferno, levei um creu do capeta e voltei. Dos meus olhos saíam lavas e faíscas de fogo e eu tremia de ódio. “Utererê”? Foi a primeira palavra que ouvi da boca daquela Diaba? Eu não estava acreditando. Como pode alguém dar tanto desgosto gente? Como pode alguém matar assim um amor tão grande? A minha vontade era de esganar aquela “baranga”. “Utererê”? Essa palavra nem existe. Essa vagabunda deve ser estrangeira. E a infeliz ainda tinha uma “vozinha” de causar suicídio coletivo.
Aquilo não era uma mulher, era uma tragédia. Aquilo não era uma mulher, era um acidente. Só de pensar que perdi tanto tempo sonhando com aquela infeliz, me dá vontade de realizar uma chacina.
O que será que há de errado comigo? Será que eu rezo pouco?Isso não é justo comigo, no fundo eu só quero ser feliz. Eu não merecia estar passando por isso. Logo eu que sou um homem que não reclama da vida. Não sei se eu já disse isso pra vocês, mas eu odeio gente que reclama demais.